Steve Rego França
O Que o Solo Escuta: Porto
Conceito
O Que o Solo Escuta: Porto apresenta-se como uma instalação de média-arte digital sonora centrada nas transformações acústicas do centro histórico do Porto sob pressão do turismo excessivo. A obra parte da ideia de que a cidade não é apenas vista e atravessada, mas também escutada, e que essa escuta torna audíveis tensões e apagamentos muitas vezes invisíveis nas leituras mais visuais do espaço urbano.
A instalação entende a cidade como um organismo acústico em erosão, onde sons identitários historicamente enraizados são progressivamente sobrepostos por novas camadas sonoras ligadas à turistificação. Em vez de uma narrativa linear, constrói uma dramaturgia sonora vivida pelo público através de três estados principais — memória, interferência e colapso — em que o sentido emerge sobretudo da experiência direta da escuta e da transformação gradual dos materiais sonoros.
Sons associados ao quotidiano portuense, como pregões, sinos, passos e elétricos, são reconfigurados até se tornarem instáveis, densos e por vezes difíceis de reconhecer, expondo a fragilidade da identidade acústica do lugar. Na fase de memória, esses sons surgem com relativa clareza; na interferência, o ruído velvet e a granulação começam a velar e saturar essas referências; no colapso, a paisagem sonora atinge tal densidade e instabilidade que os elementos originais quase desaparecem, antes de um breve retorno de um som mais puro sugerir, sem garantir, a possibilidade de regeneração.

Objetivo de intervenção / Comunicação
O objetivo central do artefacto é criar uma experiência pública de escuta que problematize a erosão acústica do centro histórico do Porto e promova reflexão em torno da justiça acústica situada. Mais do que ilustrar uma tese, a instalação funciona como dispositivo crítico que torna comparáveis e sensíveis processos de transformação sonora que, no quotidiano, tendem a naturalizar-se.
Parte-se da premissa de que o ambiente sonoro urbano não é neutro: aquilo que se ouve e aquilo que se deixa de ouvir resulta de relações entre turismo, infraestruturas, usos do espaço e formas de poder desigualmente distribuídas. Ao deslocar estas questões para o espaço expositivo, o projeto abre um campo de atenção crítica sobre quem pode ouvir, quem é ouvido e que cidade se torna audível em contextos de turistificação intensa.
Em vez de propor uma experiência de conforto ou contemplação passiva, a instalação trabalha a tensão, a sobreposição e a instabilidade como matéria estética e política. A escuta é tratada como prática de implicação: cada participante entra num campo relacional em que a sua ação interfere no estado do ambiente sonoro e, consequentemente, na experiência coletiva dos restantes visitantes.
Tecnologias e técnicas utilizadas
A arquitetura do projeto articula síntese granular, espacialização multicanal e interatividade sonora, reunindo componentes identificados no estudo de estado da arte como centrais para um dispositivo crítico de média-arte digital sonora. A lógica sonora e interativa é desenvolvida em Max/MSP e acompanhada pelo Diário Digital de Bordo, que documenta decisões e iterações do artefacto.

O sistema baseia-se em gravações de campo realizadas no centro histórico do Porto, escolhidas pela relação com marcas acústicas locais e com as novas camadas sonoras do turismo urbano. Esses materiais são manipulados em tempo real através de estratégias de síntese granular e reorganização espacial, funcionando como matéria viva de reprocessamento.
A interatividade é assegurada por dois piezos, que operam como interfaces diretos de transformação sonora. O piezo 1 aciona uma camada de ruído velvet sobre a paisagem sonora em curso, espessando e velando o campo acústico; o piezo 2 ativa a síntese granular aplicada à própria paisagem sonora, fragmentando-a em grãos e recompondo-a em texturas instáveis. Esta divisão funcional permite trabalhar duas formas complementares de erosão: uma por sobrecarga ruidosa, outra por desagregação microtemporal do tecido sonoro.

A componente espacial é pensada em formato imersivo multicanal, situando o ouvinte dentro da transformação sonora e não apenas diante dela. A espacialização funciona como ferramenta de revelação crítica, reinscrevendo o corpo no interior das tensões acústicas que o projeto procura tornar sensíveis.
Instruções de uso
A instalação foi concebida para que a relação com o público seja simples no acesso, mas densa nas implicações. O visitante entra num espaço semi-escuro, envolvido por som multicanal, e é convidado a permanecer alguns instantes em silêncio para reconhecer o estado inicial da paisagem sonora, associado à fase de memória.
Dois pontos de contacto (piezos) são claramente identificáveis no dispositivo ou no solo, acompanhados de uma indicação discreta que sugere “tocar para activar a transformação sonora”. Ao acionar o piezo 1, o visitante introduz uma camada de ruído velvet sobre a paisagem existente, aumentando progressivamente a saturação e o velamento da memória sonora. Ao acionar o piezo 2, ativa a síntese granular da própria paisagem sonora, que se fragmenta em grãos e marca a passagem para a interferência e o colapso.
Vários visitantes podem interagir em simultâneo, intensificando a erosão sonora e reforçando a ideia de ecossistema auditivo reativo. A participação não é lúdica no sentido convencional, mas ética e sensorial: cada gesto altera a experiência coletiva e desloca um equilíbrio sempre temporário. Após períodos de saturação, a instalação tende a reduzir gradualmente a densidade sonora, deixando emergir traços de memória, e o visitante é livre de sair em qualquer momento ou permanecer para escutar novas variações geradas por outras interações.
Referências e influências estéticas
O projeto cruza ecologia acústica, média-arte digital, artivismo sonoro e estudos urbanos críticos. Dialoga com o legado de R. Murray Schafer e do World Soundscape Project, especialmente na valorização da escuta crítica, dos soundmarks e da leitura da paisagem sonora como construção ecológica, cultural e histórica.
Em paralelo, aproxima-se de abordagens que entendem o som como campo de disputa social e política, como as reflexões de Brandon LaBelle sobre acoustic justice, de Marcel Cobussen sobre ecologia sonora urbana e de Jonathan Gilmurray sobre eco-sound art. A noção de justiça acústica situada desenvolvida no Estudo de Estado da Arte é transposta aqui para o contexto específico do centro histórico do Porto e para
um dispositivo instalativo concreto.
No plano técnico e estético, a síntese granular é trabalhada como método de investigação crítica e de arqueologia acústica urbana, em diálogo com Barry Truax e Curtis Roads. A espacialização imersiva e a organização do percurso em memória, interferência e colapso procuram construir uma experiência fenomenológica de escuta, em que a transformação do som funciona como estrutura narrativa principal, aproximando-se de linguagens de depuração formal e intensidade sensorial presentes em referências como Ryoji Ikeda.
Diário Digital de Bordo
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Steve Rego França é licenciado em Som e Imagem pela ESAD.CR – Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha e doutorando em Média-Arte Digital na Universidade Aberta e na Universidade do Algarve. Tem experiência em som ao vivo, em broadcast e em estúdio e é mentor do projeto musical a solo One Man Hand. Atualmente desenvolve trabalho como artista sonoro, explorando paisagens sonoras e formas de escuta que relacionam memória, espaço urbano e práticas de atenção acústica.


