Seminário: A Máquina Ajuda, mas a História é Nossa — Comunicação de Ciência e Inteligência Artificial

Um fóssil é quase sempre uma promessa por cumprir. Falta-lhe a pele, a cor, o movimento, o mundo à volta. E, ainda assim, é a partir desse punhado de osso fragmentado que pedimos ao público que imagine um animal vivo. Durante muito tempo, coube ao paleontólogo guardar a rocha. Hoje, a inteligência artificial generativa oferece-se para preencher o resto: gera vídeo, imagem, paisagens inteiras. A questão deixou de ser se consegue. É se a deixamos contar a história sozinha.

Não devemos. A máquina ajuda, mas a história, a evidência e a responsabilidade continuam a ser nossas.

O seminário abre com um breve enquadramento sobre comunicação de ciência e literacia de IA: porque é que tantos ainda olham para estas ferramentas como se olhava, na Idade Média, para um espelho ou um íman, coisas mágicas, de mecanismo invisível. Depois mostro o que temos feito no e com o Centro Ciência Viva de Lagos: geração de vídeo, imagem, grafismos e modelos 3D ao serviço do património paleontológico.

Proponho um quadro de quatro paradigmas (empírico, representação neural de cena, IA generativa, híbrido) que pergunta, perante cada imagem: isto é um registo, uma representação ou uma hipótese? Ilustro-o com fluxos reais, entre eles a reconstrução do dinossauro Cariocecus bocagei, e com o problema do “património alucinado”: imagens belíssimas que mentem com elegância.

Para quem investiga a partir da prática artística, nada disto é estranho: autoria, original, simulação, verdade. A minha resposta cabe em três verbos: rotular, documentar, educar. O autor não desaparece nesta história. Apenas troca de função: deixa de ser guardião da rocha para passar a autenticador da realidade.

 

Luís Azevedo Rodrigues (Aveiro, 1971) é paleontólogo (doutorado) e comunicador de ciência. Desde 2012 dirige o Centro Ciência Viva de Lagos (CCVL), na costa algarvia, instituição de referência da rede nacional Ciência Viva na educação não formal e na comunicação de ciência.

A sua identidade científica tem duas raízes: a morfologia teórica e a morfometria do esqueleto dos dinossauros, tema da tese de doutoramento (Universidad Autónoma de Madrid, 2009), e a icnologia de saurópodes, com trabalho de campo na Península Ibérica, na Patagónia, na Argentina e na China. Tem ainda uma pós-graduação em Gestão de Património Cultural (Universidade Nova de Lisboa).

Desde 2023, é uma das primeiras vozes dos museus de ciência portugueses a integrar, de forma estruturada, a IA generativa, a fotogrametria e as representações neurais de cena na comunicação do património paleontológico, sempre com atenção ao rigor científico e à reflexão ética. Propõe um enquadramento de quatro paradigmas e cunhou o conceito de “património alucinado”.

É Editor da revista Geoscience Communication (Copernicus/EGU), e teve, de 2004 a 2017, o premiado o blogue Ciência ao Natural.