Seminário: Desafios da Crítica Genética aplicada aos Processos de Criação Artística Contemporânea

Desafios da Crítica Genética aplicada aos Processos de Criação artística contemporânea

Propomos revisitar, nesta intervenção situada no domínio da crítica genética, as noções de arquivo, de traço e de observação participante, que constituem o cerne do estudo do processo de criação teatral escolhido e da produção dos registos sonoros, pois, como afirma Josette Féral (1998), são os vestígios que «esclarecem o sentido e permitem ver a criação em ação». Trata-se sobretudo de ver como a implementação da modalidade sonora de transmissão dos vestígios do gesto criativo abre novas perspetivas epistemológicas e instaura a regeneração das relações entre a arte teatral, a comunidade científica e a sociedade civil. Por outras palavras, que função atribuir aos vestígios sonoros como um novo meio de difusão de conhecimentos, mas também como um espaço de construção de novas modalidades de narrativas através do som? A partir de um estudo de caso sobre a importação e adaptação da obra Le Petit Prince de Saint-Exupéry no panorama cultural português, percorreremos o caminho sensivelmente recente e desafiante de iniciação à escrita sonora na investigação sobre os processos de criação artística, vista aqui como uma rede em construção e de valorização do humano, da partilha de conhecimentos e do sensível (Rancière).

Referências:

Boudreault-Fournier, A. (2019). Ce que nous apporte le son: réflexions sur un champ en vibrations. Anthropologie et Sociétés, 43(1), 9-24.

Féral, J. (2013). A Fabricação do Teatro: questões e paradoxos. Revista Brasileira de Estudos da Presença, 3(2), 566-581.

Féral. J. (1998). Pour une génétique de la mise en scène, prise 1 », Théâtre Public, nº 144, 45-59.

Larrue, J-M. & Mervant-Roux, M-M. (2016). Le son du théâtre. CNRS éditions.

McAuley, G. (2012). Not magic but work: An ethnographic account of a rehearsal process. Manchester University Press.

Rio Novo, I. & Vieira, Célia (dir.). (2011). Inter Média. Littérature, cinéma et intermédialité. L’Harmattan.

Rancière, J. (2005). A Partilha do sensível. Estética e política. Editora 34.

Santos, A. C. & Lucet, S. (2023). Parcours de génétique théâtrale : brouillons, variations, transpositions. Le Manuscrit.

Ana Clara Santos

Professora Associada na FCHS/UAlg e membro do CIAC, Ana Clara Santos é especialista na área dos Estudos Teatrais, diretora da revista Synergies Portugal e da coleção Entr’acte na editora Le Manuscrit (Paris). No domínio da História do Espetáculo, é coautora dos dois volumes do primeiro Repertório de Teatro na Lisboa oitocentista em Portugal; no domínio dos estudos de Crítica Genética, lançou o seminário de Genética Teatral no Doutoramento em Estudos Teatrais na FLUL e dirige atualmente o Mestrado em Processos de Criação na FCHS. Nos últimos 5 anos, integrou a equipa do projeto PRASORE (UCO), do projeto CYPET (CIAC/FCT) e do projeto europeu ARGOS, Observatório Europeu dos Processos de Criação nas Artes do Espetáculo (programa Europa Criativa), e codirigiu os dois volumes Parcours de génétique théâtrale (Le Manuscrit, 2018, 2023). Recentemente, foi curadora da exposição 180 anos do teatro Lethes (1845-2025), patente de outubro 2025 a abril de 2026 na CCDR-Algarve, no teatro Lethes e na UAlg.