Brunna D’ Luise Turato Lotti Alves

Dois Olhares, Um Brasil

CONCEITO

Dois Olhares, Um Brasil é uma instalação contemplativa em média-arte digital
que parte de um gesto simples e antigo, fotografar uma festa, para interrogar uma
questão profundamente contemporânea: o que acontece quando uma mesma
imagem é interpretada por dois olhares radicalmente distintos, o humano e o
algorítmico?

O artefacto toma como ponto de partida as festividades populares brasileiras,
com particular enfoque na Festa Junina, entendidas não como mero espetáculo,
mas como territórios simbólicos onde rituais, práticas alimentares, sincretismo
religioso e pertencimentos se articulam na construção da identidade. A fotografia
dessas manifestações não é tratada como simples registo documental, mas como
dispositivo de memória, atravessado pela vivência e pelo contexto cultural de quem
observa.

Sobre cada fotografia recaem duas leituras. A primeira é a da investigadora,
que regista a localização real onde a imagem foi captada e produz, a partir desse
lugar vivido, uma colagem digital autoral. A segunda é a da Inteligência Artificial, que
«espreita» a mesma fotografia, supõe uma localização e muitas vezes
desterritorializada, alheia ao peso cultural da festa, gera sobre essa suposição, a
sua própria colagem. Para uma única imagem constituem-se assim dois pares de
localização e colagem: um olhar situado e um olhar estatístico, um corpo presente
no território e uma predição construída a partir de padrões extraídos de vastos
arquivos culturais.

A obra não procura validar uma escolha entre o humano e o algorítmico, nem
hierarquizar os dois olhares. Procura, antes, tornar visível a diferença entre eles e
transformá-la em matéria estética e reflexiva. É precisamente no intervalo entre a
perceção situada e a leitura computacional que o artefacto se estrutura, expondo,
com sutileza poética, as distorções culturais que os sistemas algorítmicos produzem
quando confrontados com manifestações periféricas e pouco representadas nos
grandes repositórios de dados.

Conceitos-chave: olhar humano e olhar algorítmico, fotografia, colagem digital,
videoarte, inteligência artificial, festividades populares brasileiras, cartografia visual, identidade cultural.

OBJETIVO DE INTERVENÇÃO/COMUNICAÇÃO

O espectador é convidado a uma observação silenciosa e contemplativa do
confronto entre os dois olhares. Diante das colagens justapostas a que nasce do
lugar real e a que nasce do lugar imaginado pela máquina, o público é levado a
reconhecer, comparar e, sobretudo, a interrogar: o que se perde e o que se ganha
em cada mediação?

A contemplação é aqui uma dimensão estética constitutiva da obra, e não um
intervalo passivo. O espectador não é um recetor, mas um coprodutor de sentido: é
o seu próprio olhar, moldado por uma vivência e um contexto culturais específicos,
que se torna o terceiro elemento da experiência. Ao tomar uma decisão sobre o que
reconhece como real, cada observador exerce ativamente a sua interpretação e
toma consciência do papel que o contexto cultural desempenha em qualquer ato de
ver.

A experiência culmina numa breve discussão com os participantes presentes,
prolongando o confronto do plano visual para o plano partilhado da palavra. Um QR
Code amplia ainda essa dimensão, permitindo o acesso a conteúdos
complementares para além do espaço físico da instalação e prolongando o diálogo
noutros momentos e contextos. A obra não propõe uma resposta, mas uma
pergunta partilhada.

TECNOLOGIAS E TÉCNICAS UTILIZADAS

O artefacto combina trabalho de campo e processos computacionais,
articulando linguagens analógicas e digitais.

A base da obra é construída a partir de registos fotográficos e audiovisuais
autorais, captados in loco nas festividades selecionadas, segundo um método
a/r/cográfico e documentados num diário digital de bordo. Cada fotografia é então
submetida a um duplo procedimento de colagem digital: uma colagem autoral,
produzida pela investigadora a partir da localização real onde a imagem foi captada,
que entrelaça a fotografia de campo com outras imagens, pinturas coloniais e,
pontualmente, palavras cruzadas como elemento poético; e uma colagem gerada
por Inteligência Artificial, construída a partir da localização que o sistema supõe
corresponder à imagem. A ferramenta de IA utilizada, por agora, é o Claude, da
Anthropic, mobilizada não como instrumento técnico neutro, mas como interlocutora
crítica do processo criativo, uma média generativa preditiva cujos limites e vieses se
tornam, eles próprios, matéria da obra.

A apresentação adota uma montagem de simultaneidade em dois ecrãs. O
primeiro ecrã exibe as duas colagens em paralelo, confrontando os dois regimes de
leitura do território. O segundo ecrã apresenta vídeos e imagens dos lugares
visitados, oferecendo ao espectador um contexto visual e sensorial que amplia a
sua capacidade de reconhecimento. O movimento, o ritmo e a componente
contemplativa são definidos em pós-produção, sendo independentes da interação
direta do espectador.

REFERÊNCIAS E INFLUÊNCIAS ESTÉTICAS

Partindo da ideia de confrontar o olhar vivido com o olhar interpretado, este
artefacto foi concebido em ressonância com um conjunto de práticas que partilham
a tensão entre o documento e a ficção, entre o território e a sua representação.
A obra de Grete Stern, em particular a série Sueños (1948–1951), oferece o
modelo de uma fotomontagem que oscila entre o vivido e o imaginado, entre o
íntimo e o público capacidade de transformar um relato subjetivo numa imagem
visualmente coerente e deslocada que encontra eco direto no confronto aqui
proposto. A prática de Gê Viana, com a sua colagem de resistência e
recontextualização de arquivos, sustenta a dimensão metodológica e conceptual de
sobrepor camadas de tempo e sentido sobre a imagem. A fotografia de Walter
Firmo, dedicada às festas populares e às culturas afro-brasileiras, fundamenta o
compromisso com o detalhe humano, com o Brasil das pessoas que habitam as
suas ruas, festas e rituais, e não o dos cartões postais. A plataforma Passeio
dialoga com a metodologia da obra ao tratar o território como repositório de afetos e
memórias, combinando imagem, mapa e narrativa.

Diário Digital de Bordo

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Brunna D’ Luise Turato Lotti Alves é uma artista visual brasileira, licenciada em
Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com mestrado pela
Universidade de São Paulo (USP) e mestrado em Jornalismo de Viagens pela
Universitat Autònoma de Barcelona (UAB). Frequenta atualmente o doutoramento
em Média-Arte Digital na Universidade do Algarve / Universidade Aberta
(UAlg/UAb). A sua investigação centra-se no confronto entre o olhar humano situado
e o olhar algorítmico na interpretação de imagens, articulando fotografia, colagem
digital, videoarte e Inteligência Artificial em torno das festividades populares
brasileiras e das relações entre imagem, território e identidade cultural.