João P. Miranda

(0,0,0) — Viagens de Som, Luz e Corpo

Conceito

(0,0,0) — Viagens de Som, Luz e Corpo é uma instalação sonora e luminosa interativa que restitui a integridade esférica da escuta humana. O ouvido é, por constituição biológica, um fenómeno esférico total: localiza o som em todas as direções — à frente e atrás, em cima e em baixo. No entanto, ao longo da história, tanto a prática artística da espacialização sonora como os sistemas de reprodução deixaram sistematicamente por ativar a metade inferior dessa esfera. Da música espacial dos cori spezzati renascentistas ao Poème Électronique de Edgard Varèse, das instalações sonoras de Bernhard Leitner, Max Neuhaus ou Janet Cardiff aos sistemas esféricos de performance como o 4DSOUND, e até aos formatos mais recentes (do estéreo ao Dolby Atmos), o chão acústico — a base de suporte do corpo — permaneceu mudo. (0,0,0) intervém exatamente nessa ausência.

A obra coloca um único visitante no centro geométrico de uma esfera sonora completa, com uma fonte ativa no nadir, diretamente sob os seus pés. Ao fechar a esfera — sem hierarquia entre “cima” e “baixo”, sem zonas de silêncio —, o projeto pergunta o que acontece, percetiva e corporalmente, quando o ser humano habita um campo sonoro verdadeiramente integral. A aposta central é a de que o corpo possui uma inteligência espacial que os sistemas convencionais nunca recrutam por inteiro: ouvir deixa de ser um gesto dos ouvidos e passa a ser um gesto do corpo todo, que se orienta, inclina e reconfigura a perceção a cada micro-movimento.

O sistema

O sistema, designado 8.0.4.4.1.1, distribui dezoito colunas full-range, equidistantes do centro, por cinco camadas: oito no anel equatorial (0°), quatro na cúpula superior (+45°), quatro na cúpula inferior (−45°), uma no zénite (+90°) e uma no nadir (−90°). O som é espacializado por Ambisonics de ordem superior (HOA de 3.ª ordem) e descodificado para este layout através do algoritmo AllRAD. A opção por colunas full-range em todas as posições — sem subwoofer dedicado — garante que o grave chega com direção e corpo a partir de qualquer ponto da esfera, incluindo de baixo, onde o limiar entre o ouvido e o tato se torna corporalmente irrelevante.

Ao som soma-se a luz. Um ramo de iluminação RGBW, um ponto por coluna, responde em tempo real à amplitude sonora de cada canal: quanto mais intenso o som numa posição, mais intensa a luz nessa posição. O campo sonoro torna-se assim visível — o visitante vê o som deslocar-se antes de o identificar conscientemente como movimento — e o silêncio faz-se escuridão habitável.

A experiência

No centro da esfera, o visitante percorre dez “viagens” de cerca de um minuto cada. A primeira — o “botão zero” — não é uma introdução, mas a obra a começar: um gesto sonoro-luminoso que percorre toda a esfera e ensina ao corpo a sua geometria (a rotação, a elevação, a descida) antes das viagens expressivas. As restantes exploram trajetórias que atravessam o corpo no eixo vertical completo, do nadir ao zénite — texturas que sobem em espiral, massas que se dissolvem, a água de um rio sob os pés, a onda que se concentra no nadir.

A experiência propõe ainda uma gradação de três modos de agência, que transformam progressivamente o estatuto do visitante. Na escolha, ele seleciona os percursos a habitar. Na entrega, a sua própria voz é captada durante alguns segundos e devolvida transformada e reespacializada pela esfera, como um duplo que o envolve. Na criação, compõe em tempo real através de um teclado, com as notas graves a emergir do nadir e as agudas a irradiar do zénite. De ouvinte a matéria-prima e, por fim, a co-autor: a obra realiza-se, única e irrepetível, a cada visita.

Enquadramento

(0,0,0) cruza quatro domínios que raramente se trabalham em conjunto: a engenharia da espacialização sonora, a fenomenologia da perceção corporizada (Merleau-Ponty; Voegelin, para quem “ouvir é habitar”), a psicofísica das correspondências entre som e luz, e a estética da interatividade, através da figura do spect-acteur. A sua originalidade não reside em nenhum componente tecnológico isolado, mas na síntese inédita destes eixos: um sistema esférico full-range com nadir realmente ativo, acoplado a um mapeamento áudio-luz fundamentado e a um protocolo de agência progressiva, assumido como obra de instalação artística e não como mera infraestrutura técnica.

Conceitos-chave: espacialização sonora esférica; hemisfério inferior / nadir; instalação sonora e luminosa interativa; fenomenologia da escuta; practice-based research; co-autoria (spect-acteur)

Diário Digital de Bordo

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João P. Miranda é artista sonoro, criador audiovisual, produtor musical, técnico de som no contexto das artes performativas e docente do ensino superior. É coordenador do CTeSP de Design de Som e Produção Musical na Escola Superior de Tecnologia, Gestão e Design do Instituto Politécnico de Portalegre, onde leciona na área do som e do audiovisual e é responsável pelo Laboratório de Som da instituição. É igualmente Diretor Técnico do Jazz ao Centro Clube, em Coimbra, mantendo uma trajetória consolidada entre o estúdio, o palco, a criação audiovisual, o contexto académico e a investigação artística. Licenciado em Design de Comunicação e detentor do Título de Professor Especialista na área de Audiovisuais e Produção dos Media, é atualmente doutorando em Média-Arte Digital na Universidade do Algarve, em parceria com a Universidade Aberta, onde desenvolve o projeto 0,0,0 — Viagens de Som, Luz e Corpo.