José Ribeiro da Silva

mmHg

CONCEITO

mmHg é uma instalação de média-arte digital que propõe a fricção como condição de acesso à experiência estética. A obra desloca o regime tradicional da contemplação para um modelo de ativação corporal em que ver implica esforço, duração e compromisso.

No espaço expositivo, o visitante encontra uma pera de borracha ligada por um tubo helicoidal de silicone a um monitor em orientação vertical, enquadrado por uma moldura dourada. No ecrã é apresentada uma reprodução digital de Retrato de uma Dama (c. 1470), atribuído a Jacometto Veneziano.

O retrato apresenta características que, para o olhar contemporâneo, produzem um estranhamento singular — quase como se a imagem tivesse sido gerada artificialmente. A técnica quatrocentista italiana, com as suas camadas finíssimas de óleo, produz uma superfície que hoje lemos como sintética. O que hoje identificamos como artificial é, em parte, o retorno de uma convenção que esquecemos.

A interação não é instruída. Ao pressionar a pera, o visitante estabelece uma relação de pressão simultaneamente mecânica e simbólica. A resposta não é imediata nem transparente; emerge através de uma negociação progressiva entre gesto, intensidade e duração. O sistema não mede pressão real — constrói uma pressão figurada por acumulação de impulsos discretos. Esta distinção é conceptualmente central: a escala mmHg do título não é uma medição fisiológica, é uma convenção simbólica.

A experiência organiza-se em três estados visuais progressivos. No estado inicial, o retrato é apresentado em repouso, enquadrado pela moldura. Com a acumulação de impulsos acima de um primeiro limiar, surgem sobre a imagem anotações textuais em latim — termos clínicos reais, extraídos de artigos científicos que aplicam semiologia médica a este retrato específico. São apresentados sem tradução, com linhas de conexão animadas para os pontos anatómicos correspondentes na figura, funcionando como marcadores ambíguos de autoridade clínica. Acima de um segundo limiar, e mediante sustentação do esforço, ativa-se um processo progressivo de degradação da imagem por glitch, acompanhado por um registo em tempo real dos parâmetros da interação. O visitante percebe, nesse momento, que o seu esforço deixou marca. A sequência culmina numa linha de ECG animada, com beep sonoro sincronizado. Após alguns segundos de inatividade, o sistema reinicia automaticamente.

O instrumento de mediação é, por si mesmo, portador de significado: a pera de borracha e o tubo não são um controlador de videojogo nem uma interface neutra — são componentes de um dispositivo concebido para monitorizar um sistema cardiovascular. Ao utilizá-los para aceder a uma imagem, a obra convoca três corpos distintos: o corpo do visitante, cuja força muscular é convertida em sinal; o corpo representado na pintura, sobre o qual se projeta uma leitura clínica; e o corpo da própria interface — tubo, transdutor, mesa de mistura, circuito — como sistema circulatório artificial.

Conceitos-chave: fricção somática; arte interativa; património histórico-artístico; corporalidade.

OBJETIVO DE INTERVENÇÃO / COMUNICAÇÃO

O visitante é convidado a confrontar uma premissa simples e perturbadora: e se a forma de ver uma imagem histórica dependesse do esforço do seu corpo? A obra recusa a transparência das interfaces contemporâneas — a lógica do gesto mínimo, da resposta imediata, da mediação invisível. Em vez disso, introduz fricção deliberada: resistência física, opacidade causal, distância estética. Não para dificultar a interação, mas para tornar o corpo consciente de si próprio como condição da experiência.

Quando o esforço é necessário para ver, a relação com a imagem transforma-se. Deixa de ser contemplação distanciada. Torna-se negociação. O participante não observa o retrato — trabalha para o alcançar, e esse trabalho deixa registo. A sobreposição de uma linguagem clínica — termos de diagnóstico médico retrospetivo aplicados a uma figura do século XV — sobre o regime contemplativo museológico tensiona dois modos de olhar historicamente separados: o olhar estético e o olhar clínico. Ambos pretendem conhecer o corpo; ambos o fazem a distância; ambos produzem autoridade sobre uma figura que não pode responder.

A pergunta que o mmHg coloca e investiga é: de que modo a fricção somática em sistemas artísticos interativos reconfigura a relação estética com imagens do património histórico-artístico?

TECNOLOGIAS E TÉCNICAS UTILIZADAS

A instalação articula elementos provenientes de três domínios — médico-clínico, histórico-artístico e computacional — cuja interseção constitui o seu núcleo estético e operacional.

Captação do sinal
A captação do sinal é realizada por um transdutor eletromagnético (Telex RTV-04) inserido no tubo de silicone que liga a pera de borracha ao sistema. Este componente não mede pressão de forma contínua: funciona como captador de transientes e impulsos físicos, respondendo com elevada seletividade ao fluxo de ar produzido por cada aperto, com mínima sensibilidade ao ruído ambiente.

Conversão e controlo de ganho
O sinal analógico é enviado para uma mesa de mistura compacta, que realiza a conversão analógico-digital e permite ajustar o ganho com precisão. Este controlo é determinante para a calibração da experiência: define o limiar de intensidade do aperto a partir do qual é gerado um evento, tornando o sistema responsivo apenas a gestos suficientemente fortes e intencionais. A saída digital é enviada para o sistema computacional central.

Processamento e lógica de estados
O processamento visual é realizado em tempo real através de software desenvolvido em Processing. Cada impulso detetado incrementa um contador interno de pressão figurada. Este valor acumulado — e não uma medição contínua — determina a progressão entre os três estados visuais da obra: repouso; anotações clínicas em latim com linhas de conexão anatómica animadas; e degradação progressiva da imagem por glitch, seguida de ECG com beep sonoro sincronizado, modulada pela frequência e duração dos apertos. A imagem base é carregada em alta resolução e renderizada em modo fullScreen, com cálculo dinâmico de posicionamento e escala. As coordenadas das anotações são definidas em espaço virtual e convertidas para coordenadas de ecrã físico, garantindo consistência independentemente do hardware. O sistema incorpora ainda um mecanismo de registo automático que documenta os parâmetros da interação em tempo real.

Equipamentos
Pera de borracha com tubo de silícone helicoidal; transdutor eletromagnético Telex RTV-04; mesa de mistura compacta com entrada de microfone e saída USB; computador de pequeno formato (Mac Mini); monitor de 24” (resolução mínima 1920×1080) em modo retrato; moldura dourada adaptada ao monitor; sistema de suporte. O consumo elétrico estimado é inferior a 200W.

REFERÊNCIAS E INFLUÊNCIAS ESTÉTICAS

O mmHg situa-se na convergência entre três campos de reflexão: a teoria da interatividade e da experiência incorporada em arte digital, os estudos sobre património e mediação da imagem histórica, e as práticas artísticas que mobilizam o corpo como lugar de negociação com sistemas técnicos.

A fundamentação teórica assenta numa compreensão da interação enquanto processo corporal, situado e relacional. A fenomenologia da perceção de Maurice Merleau-Ponty, a noção de embodied interaction desenvolvida por Paul Dourish e a perspetiva enativa proposta por Varela, Thompson e Rosch permitem compreender o corpo não como mero operador de interfaces, mas como condição constitutiva da experiência e da produção de significado. A contribuição de Richard Shusterman reforça a importância da consciência somática na experiência estética.

No campo da arte interativa, o projeto aproxima-se de autores que compreendem a interação para além da execução funcional de comandos. A distinção proposta por Janet Murray entre atividade e agência, as abordagens relacionais de Simon Penny e as reflexões de David Rokeby sobre resistência e perceção de impacto constituem referências centrais para pensar a experiência produzida pelo dispositivo.

A escolha de um retrato renascentista como elemento central da instalação inscreve-se na reflexão sobre as formas contemporâneas de mediação do património visual. As contribuições de Carol Duncan e Tony Bennett sobre os regimes museológicos de observação, bem como os trabalhos de Fiona Cameron e Sarah Kenderdine sobre património digital, permitem enquadrar criticamente a relação entre imagens históricas, dispositivos de mediação e experiência do público.

No plano estético, a obra estabelece um diálogo entre a visualidade contemplativa do retrato histórico e a lógica processual da arte interativa contemporânea. A tensão entre corpo, tecnologia e sistemas de observação aproxima-a de práticas desenvolvidas por Rafael Lozano-Hemmer e Lynn Hershman Leeson, cujas obras exploram diferentes formas de agência, mediação tecnológica e implicação corporal.
No plano formal, a integração de componentes de um instrumento médico numa instalação de arte digital situa o mmHg numa linhagem que inclui os objetos clínicos de Joseph Beuys, o corpo-máquina de Orlan, e a tradição da arte que recorre a instrumentos de medição e de monitorização como crítica à objetificação do corpo pela ciência.

A sobreposição de terminologia clínica ao retrato tem origem na literatura médico-científica que aplica diagnósticos retrospetivos a obras de arte histórica. Estudos dedicados ao Retrato de uma Dama, atribuído a Jacometto Veneziano, identificam sinais compatíveis com diferentes condições fisiológicas. O mmHg não procura validar essas leituras clínicas, mas refletir sobre os regimes de autoridade e interpretação que permitem transformar uma imagem histórica num objeto de observação médica.

Diário Digital de Bordo

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Partindo da História da Arte e dos Estudos do Património, José António Ribeiro da Silva aproxima-se atualmente da Média-arte Digital e das questões ligadas à corporalidade, interatividade e agência em contextos artísticos mediados pela tecnologia. O seu percurso cruza investigação e jornalismo, articulando interesses nas áreas da arte, património e comunicação.