Rui Sousa d’Orey
IV
IV é o resultado de um processo contínuo de investigação artística baseada na prática. Uma obra em progressão que, ao longo de quatro iterações, tem vindo a refletir sobre si mesma, servindo simultaneamente como teste e exploração de novos conceitos. Partindo de uma interrogação sobre como os media afetam a relação do animal humano com outros animais, e expandindo progressivamente para a tecnologia e para as relações entre humanos, a série questiona a figura do anthropos sacrossanto e os sistemas mediáticos e digitais que o prolongam: ambos se apresentam como limpos, íntegros, objetivos, imunes à contaminação, mas constroem e orientam visões do mundo de forma tão mecânica quanto invisível. O dispositivo habita o espaço do objeto, daquilo que o sujeito expulsa para se constituir e que regressa para perturbar essa constituição, e do ciborgue, a figura impura e híbrida que recusa a separação entre o natural e o construído, entre o corpo e o protocolo, entre o olhar humano e o olhar da máquina. Não a fantasia da perfeição aumentada, mas a sua falha exposta e habitada. Nesta quarta iteração, o dispositivo transborda a superfície do ecrã e decompõe-se materialmente no espaço em vários componentes físicos. Mantém, sob esta nova forma, as bases que atravessam a série: o dilema do olhar mediático controlado pela cabeça, o embodiment, a escolha mediática e a ausência de perfeição e ordem explícita. Exploram-se assim questões como: quem (o quê) orienta o olhar mediático, e o quê (quem) é por ele orientado.
Rui Sousa d’Orey é artista, investigador em Média-Arte Digital e engenheiro de software, afiliado ao Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC). Licenciado em Ciência da Computação pela Universidade do Porto (2013), especializou-se em computação gráfica e interação humano-computador, tendo participado em projetos FCT e internacionais nas áreas de motion capture, realidade virtual e inteligência artificial. Trabalha com empresas como freelancer e através de uma agência própria. No Doutoramento em Média-Arte Digital nas Universidades do Algarve e Aberta procura explorar e questionar, a partir de referenciais pós-humanistas, as relações entre animais humanos e não humanos, o mediático, o mecânico e o digital.
