Nuno Ferreira da Silva

13.1.3.8.9.14.1

CONCEITO

13.1.3.8.9.14.1 traduz-se numa vídeo-instalação que explora a natureza operativa da
máquina na organização do visível digital. Partindo da hipótese de que a maior
parte dos sistemas contemporâneos funciona através de processos opacos que
impossibilitam a sua compreensão, o artefacto procura criar uma situação em
que essa opacidade é momentaneamente exposta sem nunca ser totalmente
dissipada.

A instalação desenvolve-se através da relação entre um computador danificado e
uma projecção vídeo em quad split. O ecrã do computador, embora marcado
pela falha física, permanece operacional, funcionando simultaneamente como
vestígio material de uma ruptura e como evidência da persistência do sistema. A
projecção estabelece com este objecto danificado uma relação de causalidade
ambígua que nunca é explicitamente confirmada, incentivando o espectador a
procurar relações entre os diferentes elementos presentes no espaço.

As imagens utilizadas são provenientes de arquivos digitais e datasets que
abrigam imagens de infraestruturas técnicas, sistemas de observação, espaços
administrativos e dispositivos de mediação tecnológica. Descontextualizadas da
sua função original e reorganizadas através de uma montagem fragmentária,
estas passam a integrar um fluxo visual que aparenta obedecer a uma lógica
computacional, mas cuja estrutura permanece inacessível.

A obra procura, desta forma, materializar a presença de uma estrutura
organizadora do visível, não através da sua representação directa, mas por via da
experiência de um sistema que parece funcionar continuamente sem jamais
revelar plenamente os mecanismos que o sustentam.

Conceitos-chave: opacidade, infraestruturas digitais, vigilância distribuída,
mediação tecnológica, arquivo digital, vídeo-instalação

OBJECTIVO DE INTERVENÇÃO/COMUNICAÇÃO

13.1.3.8.9.14.1 propõe uma experiência centrada na tensão entre visibilidade e
invisibilidade. Ao entrar no habitáculo da instalação, o espectador é confrontado
com um sistema aparentemente funcional, mas cuja lógica interna permanece
obscura. A obra não pretende transmitir informação específica nem comunicar
através de dispositivos de significação, procurando, por outro lado, colocar o
espectador perante a experiência de um mecanismo que resiste à interpretação
imediata.

A organização espacial da instalação incentiva uma relação exploratória, em que a
construção de sentido depende da posição do corpo, da atenção e do tempo de
permanência. A ausência de mecanismos interactivos explícitos transfere para o
espectador a responsabilidade de estabelecer relações entre os elementos
presentes, transformando a observação num processo activo de negociação
interpretativa.

A instalação procura tornar sensível a existência de estruturas que operam
silenciosamente na organização da experiência visual, em vez de tornar explícitas
as formas contemporâneas de vigilância ou automatização. Desta forma,
13.1.3.8.9.14.1 pretende estimular uma reflexão crítica sobre os sistemas técnicos
que moldam a percepção contemporânea sem recorrer a discursos explicativos
ou representações literais.

TECNOLOGIAS E TÉCNICAS UTILIZADAS

A instalação é composta por um computador portátil danificado, mas funcional,
um sistema de projecção vídeo e um ambiente sonoro multicanal de baixa
intensidade. A configuração espacial procura estabelecer uma relação dialética
entre o objecto físico e a imagem projectada, atribuindo ao monitor uma
presença escultórica que ultrapassa a sua função original de dispositivo de
visualização.

A componente visual é construída a partir de imagens provenientes de arquivos
digitais e datasets públicos relacionados com sistemas de observação,
infraestruturas técnicas, redes de comunicação e espaços administrativos. Estes
materiais são reorganizados através de processos de montagem e pós-produção,
com recurso ao Premiere Pro, que privilegiam a fragmentação, a repetição e a
dilatação temporal, criando uma lógica visual inspirada na operacionalidade dos
sistemas computacionais.

A componente sonora é constituída por uma paisagem acústica contínua
composta por ruídos mecânicos, frequências residuais e texturas electrónicas
discretas. O som não ilustra a imagem nem estabelece sincronizações directas,
funcionando como uma extensão atmosférica da infraestrutura sugerida pelas
imagens.

REFERÊNCIAS E INFLUÊNCIAS ESTÉTICAS

O desenvolvimento conceptual da obra encontra um dos seus pontos de partida
em Hito Steyerl, particularmente na forma como Strike (2010) transforma o ecrã
numa superfície simultaneamente material e política. A instalação dialoga ainda
com as reflexões sobre os regimes de atenção contemporâneos, desenvolvidas
por Jonathan Crary, aludindo, ainda, à metáfora do olhar através do vidro da
janela, do filósofo Ortega y Gasset, deslocando este acto sensível para as
condições que possibilitam a existência da obra.

Do ponto de vista formal, o projecto aproxima-se da vídeo-instalação e de práticas
de média-arte que exploram a relação entre imagem, espaço e dispositivo,
privilegiando a construção de experiências sensíveis em detrimento de estruturas
narrativas convencionais. A utilização de materiais provenientes de arquivos e
datasets reflete igualmente um interesse pelas imagens operativas e pelos
sistemas infraestruturais que sustentam a cultura digital contemporânea,
procurando deslocar a atenção do espectador daquilo que é mostrado para as
condições que tornam possível o próprio acto de ver.

Diário Digital de Bordo

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Nuno Ferreira da Silva é licenciado em Vídeo e Cinema Documental, pelo Instituto Politécnico de Tomar e mestre em Estudos Cinematográficos, pela Universidade Lusófona. É assistente convidado pelo Instituto Politécnico de Tomar, na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, onde leciona no cTeSP Som e Imagem e doutorando em Média-Arte Digital, onde desenvolve investigação sobre as relações entre narrativa, processos algorítmicos e regimes de visibilidade na cultura digital contemporânea.