Inauguração da exposição ./logSinapses
A exposição “./logSinapses”, no Convento do Espírito Santo em Loulé, propõe uma travessia imersiva por territórios sensíveis onde a arte digital se funde com a crítica social, memória coletiva e ativismo ambiental. Inspirada na metáfora das sinapses, a mostra constrói uma rede de 17 obras interligadas por temáticas urgentes e linguagens inovadoras, que convidam o público a abandonar a contemplação passiva e a mergulhar numa experiência sensorial e participativa.
Conceito
O título da exposição, “./logSinapses”, funde duas metáforas centrais para compreender o universo da média-arte digital: os logs computacionais — arquivos de registo de processos — e as sinapses — conexões neuronais que transformam perceções e geram pensamento. Esta união simbólica dá corpo a uma proposta curatorial que valoriza tanto a memória processual dos projetos quanto as redes de sentido que eles ativam no encontro entre arte, tecnologia e crítica.
Em ambientes computacionais, os log files são registos sistemáticos da atividade de um sistema: operações executadas, interações, erros e estados transitórios. São a memória da máquina, um rastro detalhado que permite compreender como ela funciona. Esta metáfora alinha-se com os diários de bordo que os doutorandos desenvolvem ao longo da criação dos seus projetos. Neles documentam-se decisões conceptuais, avanços técnicos, desafios enfrentados e soluções encontradas — compondo uma narrativa processual da investigação artística.
Por outro lado, sinapses alude ao campo da neurociência, onde essas conexões são responsáveis pela circulação de informação e pela formação de conhecimento. No contexto da exposição, o termo serve como metáfora para as interações e relações que os projetos de arte digital promovem — entre dados e sensações, interfaces e corpos, algoritmos e subjetividades. Cada obra é uma conexão ativa, capaz de transformar o olhar e provocar pensamento.
O prefixo “./”, oriundo dos sistemas Unix/Linux, refere-se ao diretório atual — o ponto de partida, o lugar onde o utilizador se encontra no momento. Na exposição, essa notação sublinha o “aqui e agora” da experiência: um acesso direto aos projetos finalizados, que carregam consigo a memória do percurso e a energia das ligações que os tornaram possíveis.
As obras apresentadas em “./logSinapses” ultrapassam o estatuto de objetos contemplativos. São experiências imersivas, interativas, muitas vezes generativas, que convocam o público a participar ativamente na construção de sentido. Utilizando a tecnologia como linguagem, e não apenas como meio, os artistas-investigadores exploram temas urgentes — identidade, memória, política, ecologia, mediação — através de práticas que interligam o físico e o digital, o real e o virtual.
Logótipo

O logótipo apresenta-se como uma composição gráfica de inspiração digital, com forte conotação ao universo da programação, dos sistemas computacionais e das redes neuronais. O nome do projeto — “./logSinapses” — surge como linha de comando, evocando práticas de logging em sistemas operativos baseados em Unix/Linux, onde o prefixo ./ remete para a execução de ficheiros locais. Esta opção semiótica inscreve o projeto no léxico da computação, indicando desde logo uma abordagem crítica e criativa às tecnologias digitais. A tipografia escolhida para o nome principal é monoespaçada e pixelizada, remetendo para o design gráfico das interfaces retro e para o imaginário do digital “bruto”, ainda não estetizado pela cultura de massas. Este tratamento reforça a estética do glitch, da codificação e da visualidade algorítmica, comuns na Média-Arte Digital.
O subtítulo — “Registos em Média-Arte Digital” — em tipo de letra não serifada, funciona como contraponto racional à visualidade mais codificada do título. Este equilíbrio entre o expressivo e o informativo traduz o carácter dual do projeto: artístico e documental, sensível e sistemático, humano e maquínico.
Graficamente, o logótipo é composto por dois retângulos sobrepostos, ligeiramente deslocados, sugerindo camadas de informação, frames visuais, janelas de interface ou ícones de ficheiros de computador.
A escolha cromática em preto e branco reforça a clareza conceptual e a natureza arquivística do projeto, evocando simultaneamente os contrastes binários do código (0/1) e da luz digital (on/off), além de garantir uma neutralidade visual que privilegia o conteúdo sobre a ornamentação.
A pequena dobra no canto inferior direito pode ser interpretada como um detalhe alusivo ao gesto de virar uma página, simbolizando a ideia de registo, arquivo ou memória — em consonância com a noção de “log” no nome.
Finalmente, o título “./logSinapses” parece operar também como um neologismo conceptual, unindo:
- “log”, como registo de eventos, atividades, dados;
- “sinapses”, remetendo para o universo neurológico e, por extensão, para redes neuronais artificiais e inteligência artificial — campos pertinentes à média-arte contemporânea. As obras selecionadas, embora marcadas por diferentes temáticas e abordagens, compartilham um elemento em comum: o uso da tecnologia como recurso central para a criação e a interação.
Artistas participantes
- Adelcides Rodrigues
- Ana Luz e Silva
- Anderson Adão
- Andreia Matias
- Daniel Carneiro
- Gabriella Fontes
- Hugo Marques
- Joaquim Azevedo
- Margarida Gil
- Mário Coelho
- Nelson Domingos
- Ricardo Monteiro
- Sandra Teixeira
- Sónia Tavares
- Valdemir Neto
- Valéria Fraga
- Vítor Gomes
Eixos temáticos
O percurso da exposição foi concebido para proporcionar uma experiência sensorial completa, explorando as diferentes temáticas apresentadas pelas obras, desde questões sociais e políticas até reflexões sobre identidade e meio ambiente. A disposição das instalações convida o público a uma jornada que atravessa memórias coletivas, subjetividades expandidas, críticas sociopolíticas e consciências ecológicas, culminando numa reflexão profunda sobre os desafios contemporâneos.
Ao ocupar este espaço carregado de história, a exposição “./logSinapses” estabelece um diálogo entre passado e presente, tradição e inovação, reforçando o papel do Convento do Espírito Santo como ponto de encontro entre a herança cultural e as práticas artísticas emergentes.

Nesta edição do Retiro Doutoral, serão expostas 17 obras distribuídas por quatro eixos temáticos:
- Corpo, Afeto e Subjetividade
- Territórios da Memória e do Património
- Natureza, Crise Ambiental e Escuta Ecológica
- Política, Migração e Mediações Algorítmicas
Logo à entrada, adentra-se o território íntimo do Corpo, Afeto e Subjetividade, onde “Uncanny Me”, “Menstruório” e “Areia para os Olhos” desestabilizam normas e silenciam estigmas, dando visibilidade a vivências neurodivergentes, ciganas e femininas. Aqui, a arte não só representa, mas também performa afetos, perturbações e potências de escuta.
A seguir, somos conduzidos aos Territórios da Memória e do Património, onde obras como “Hope in Salvation” e “Entre Tecidos e Pixels” reanimam o passado através da realidade aumentada e narrativas afetivas, convocando o visitante a reimaginar patrimónios esquecidos. A “Interatividade de Cidade Velha Interativa” e o universo simbólico de “Oceanus Symmetriarum” constroem pontes entre tradição e inovação, entre o legado físico e o digital. Já “Píxeis e Palcos” transforma o Festival MED numa ode gerada por IA à memória cultural.
No núcleo Natureza, Crise Ambiental e Escuta Ecológica propõe uma reconexão urgente com o planeta. “Ecos da Amazónia” e “Ouçam o Peixe” transformam o espaço expositivo num ecossistema sensível, onde sons, sensores e gestos evocam a fragilidade do mundo natural e a responsabilidade ética que partilhamos.
Por fim, no núcleo Política, Migração e Mediações Algorítmicas, a tensão cresce com obras como “Oblivium”, “Travessias”, “Ghost in the Machine” e “Corpo de Resistência”, que denunciam o apagamento de vozes imigrantes, os horrores das travessias marítimas e os jogos de poder da propaganda mediática. “Omnicore”, “Immersync Collective” e “Artivismo Feminista em IAs Generativas” ampliam a crítica com estéticas híbridas, onde IA, vigilância e cocriação se entrelaçam para questionar identidade, autoria e representação.
Ao percorrer “./logSinapses”, cada visitante torna-se uma centelha nesta rede rizomática de arte e consciência. O percurso culmina não com respostas, mas com perguntas reverberantes — e com a certeza de que, tal como nas sinapses, é da ligação entre fragmentos que emergem os novos sentidos do presente.


