Abdul Noordine Mamudo Saramala
Mafalala Aumentada: Memórias que Habitam o Território
Conceito
A obra parte da ideia de que a memória de um território não se inscreve apenas nos edifícios ou nos vestígios materiais, mas também nas histórias, experiências e relações que continuam a ser partilhadas pelas comunidades. Na Mafalala, muitas dessas memórias persistem apesar das transformações urbanas que, ao longo do tempo, redesenharam o bairro.
Mafalala Aumentada: Memórias que Habitam o Território utiliza a Realidade Aumentada como medium artístico para revelar camadas digitais associadas a lugares e retratos do bairro, propondo uma experiência situada onde espaço físico e conteúdos digitais se entrelaçam na construção de novas leituras do território.
Ao percorrer a instalação, o visitante é convidado a descobrir narrativas que permanecem invisíveis no quotidiano, estabelecendo relações entre memória, património, comunidade e transformação urbana. A obra não procura reconstruir o passado, mas estimular novas formas de olhar, interpretar e experienciar a Mafalala através da interação entre arte, território e tecnologia.
Objetivo de Intervenção / Comunicação
A instalação propõe uma experiência artística participativa que convida o visitante a descobrir e valorizar a memória territorial da Mafalala através da interação entre o espaço físico e a Realidade Aumentada.
A obra procura despertar a curiosidade, incentivar a exploração dos percursos e retratos apresentados e estimular uma reflexão sobre a forma como as memórias permanecem ligadas aos lugares, mesmo quando estes se transformam ao longo do tempo.
Ao aproximar o visitante do Museu Comunitário da Mafalala, a instalação reforça o papel deste espaço como lugar de preservação, mediação e construção coletiva de conhecimento, revelando a vitalidade das narrativas que habitam o território e das comunidades que o mantêm vivo.
Tecnologias e Técnicas Utilizadas
A instalação combina tecnologias digitais e recursos expositivos para criar uma experiência artística situada, onde o território funciona como ponto de partida para a ativação da memória.
A Realidade Aumentada, implementada através de tecnologia WebAR, constitui o principal medium da obra. Esta solução permite sobrepor conteúdos digitais aos percursos e retratos apresentados na exposição, sem necessidade de instalar aplicações adicionais. O acesso é feito diretamente pelo dispositivo móvel do visitante, através de QR Codes que iniciam a experiência de forma simples e imediata.
A interação é complementada por auscultadores, que oferecem uma escuta individualizada das narrativas sonoras, criando uma imersão mais íntima e reduzindo interferências no espaço expositivo. Um sensor de movimento (PIR) MP3 ativa automaticamente a paisagem sonora da instalação à medida que o visitante se aproxima, reforçando a relação entre presença física e experiência artística.
A instalação integra ainda fotografia documental, retratos fotográficos, design gráfico expositivo, cartografia artística do território e narrativas locativas, organizando visualmente os percursos de memória e estabelecendo relações entre lugares, memórias e comunidade, numa experiência que articula arte, território e tecnologia.
Percurso da Experiência
Mais do que um conjunto de instruções, este percurso traduz a forma como a obra é vivida. Da descoberta inicial à partilha final, cada etapa convida o visitante a estabelecer relações entre território, memória e comunidade através da interação com conteúdos em Realidade Aumentada.
A experiência permanece aberta à interpretação individual: cada visitante constrói o seu próprio modo de ver, ouvir e sentir a Mafalala, ativando memórias que habitam o território e revelando camadas que, no quotidiano, permanecem invisíveis.

Referências e Influências Estéticas
Mafalala Aumentada: Memórias que Habitam o Território inscreve se no campo da Média Arte Locativa, articulando território, memória e tecnologias digitais na criação de experiências estéticas situadas.
A obra inspira se em práticas artísticas que utilizam o percurso, a localização e a participação do público como elementos centrais da experiência. Entre as referências destacam se as caminhadas sonoras de Janet Cardiff, que exploram narrativas imersivas no espaço urbano; as intervenções locativas do coletivo Blast Theory, que investigam a relação entre espaço físico, tecnologias digitais e envolvimento do público; e as obras em Realidade Aumentada de Tamiko Thiel e John Craig Freeman, que demonstram o potencial das camadas digitais georreferenciadas para ativar memórias e ampliar a perceção dos lugares.
Conceptualmente, o projeto dialoga com os estudos de Lev Manovich, Christiane Paul, Claudia Giannetti e Adriana de Souza e Silva sobre Média Arte Digital e Média Arte Locativa, entendendo a tecnologia não apenas como ferramenta, mas como medium artístico capaz de produzir experiências situadas e revelar novas formas de relação com o território.
Estas referências convergem na construção de uma proposta que aproxima museu, território e comunidade, utilizando a Realidade Aumentada para tornar visíveis memórias distribuídas pelo bairro e promover novas formas de olhar, interpretar e experienciar a Mafalala
Diário Digital de Bordo
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Abdul Noordine Mamudo Saramala é licenciado em Administração e Gestão de Empresas pela Universidade Técnica de Moçambique (UDM, 2008), pós-graduado em Gestão por Processos de Negócios pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC-Brasil, 2013), mestre em Gestão de Marketing pelo Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM-Lisboa, 2021) e doutorando em Média-Arte Digital pela Universidade do Algarve (UAlg) em parceria com a Universidade Aberta (UAb). Profissionalmente atua no setor bancário em Moçambique, no Banco Comercial e de Investimentos (BCI), nas áreas de gestão de projetos, processos de negócio e transformação organizacional. A sua investigação cruza Realidade Aumentada locativa, memória territorial e mediação museológica comunitária, tendo a Mafalala como território de estudo e criação artística.


