Valdemir Neto

Oblivium:
retratos da memória imigrante brasileira em Portugal

Conceito

Oblivium é uma obra de artivismo digital que se propõe a subverter a memória hegemônica dos imigrantes brasileiros em Portugal, focando na memória do tempo presente como espaço de disputa simbólica e afirmação identitária. Atuando simultaneamente como instalação expandida no Instagram e um arquivo vivo como repositório virtual, a obra destaca figuras reais,  ativistas, trabalhadores, estudantes, que protagonizam formas plurais de resistência cotidiana em território lusitano.

Através da combinação entre videoarte, artivismo digital e as práticas colaborativas em redes sociais, Oblivium constrói uma narrativa fragmentada e não linear da experiência migrante, evocando ausências históricas, apagamentos institucionais e silenciamentos sociais. O objetivo consiste em tensionar os discursos de ódio e os dispositivos de invisibilidade que ainda permeiam a condição imigrante, subvertendo narrativas generalistas sobre os imigrantes, e dando luz à um espaço coletivo de escuta, partilha e reescrita da memória. Neste projeto, o público atua como coautor desse processo de reelaboração da memória, participando ativamente por meio da interação, dos comentários e da remixagem nas redes sociais.

Diagrama conceitual

Referências e influências

A obra Oblivium estrutura-se esteticamente na convergência entre a videoarte e o artivismo digital, assumindo uma linguagem híbrida que se desdobra entre o sensorial e o político. A videoarte, enquanto território da experimentação visual e sonora, permite à obra operar com fragmentação, repetição e ruído como estratégias poéticas para evocar memórias marginalizadas, especialmente aquelas relacionadas à experiência de imigração e apagamento simbólico. No contexto contemporâneo, esse uso da videoarte se alinha a práticas que recusam a narrativa linear e apostam na descontinuidade como linguagem de resistência. Nesse sentido, Oblivium também se ancora no campo do artivismo digital, entendido aqui como prática artística engajada que utiliza plataformas e linguagens digitais para provocar rupturas nos fluxos comunicacionais normativos. A obra se realiza principalmente nas redes sociais, adotando o Instagram como território de ativação crítica e cocriação. Influenciada pelas ideias de Raposo sobre artivismo digital e insurgência estética, Oblivium aposta na performatividade da imagem e na participação em rede como formas de tensionar os regimes de visibilidade que excluem vozes imigrantes do espaço público simbólico.

A estética adotada, marcada por sobreposições, instabilidades visuais e elementos glitch, evoca a falha da memória oficial e abre espaço para narrativas desviantes. O remix, o recorte e a apropriação de imagens e sons não aparecem como ornamento, mas como gesto político de montagem de um arquivo alternativo. A obra também se inspira em práticas visuais que exploram a interferência do corpo na imagem e a interação com algoritmos, criando uma ecologia estética em que presença, ausência e ruído são matéria sensível.

Objetivo da intervenção/comunicação

Durante a exposição, o visitante é convidado a interagir com Oblivium por meio do Instagram do projeto. Além de navegar pelos materiais disponíveis, o objetivo da intervenção é que o público comente, compartilhe e interaja com as experiências dos imigrantes, na qual se busca perpetuar uma rede de escuta, visibilidade e troca simbólica. O envolvimento dos espectadores nas redes sociais, neste caso, torna-se parte integrante da obra, transformando-os em coautores na subversão da  memória coletiva hegemônica sobre os imigrantes.

Instruções de utilização

Oblivium é uma obra de artivismo digital concebida considerando a linguagem das redes sociais, especialmente no Instagram. O público é convidado a participar ativamente da obra através de interações digitais que ampliam e resignificam as experiências de migração e esquecimento.

A participação envolve as seguintes práticas:

  • Compartilhar trechos da obra (vídeos, capturas de tela, reflexões);
  • Comentar as postagens com relatos, impressões ou memórias evocadas;
  • Remixar conteúdos em forma de edits, colagens ou reinterpretações visuais, potencializando a circulação das vozes silenciadas.

Neste sentido, a obra se constrói a partir da apropriação pública e da reencenação sensível dos materiais partilhados, onde o engajamento algorítmico se torna, também, um gesto político de enfrentamento ao esquecimento sistemático.

Tecnologias e técnicas utilizadas

Videoarte com fragmentos de entrevistas, registros e material de arquivo distorcido, compondo uma narrativa não linear.

Estética glitch e técnicas de sobreposição para simular a falha da memória e o desgaste da narrativa dominante.

Integração com bases de dados de depoimentos reais, permitindo uma articulação ética entre arte e testemunho.

Diário Digital de Bordo

https://blog.oblivium.pt

Valdemir Neto

Screenshot

Publicitário e mestre em Ciências da Linguagem (UNISUL/Brasil). Membro do grupo de investigação em Memória, Afeto e Redes Convergentes. É investigador no Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC). Bolseiro de investigação pela Universidade dos Mares (SEA-EU), dedicando-se atualmente ao estudo da memória e literacia mediática, considerando a interseção desses temas com os discursos de ódio contra imigrantes brasileiros em Portugal.