Gabriella Fontes

Areia para os olhos

Conceito

Areia para os olhos é uma instalação multimídia que propõe uma travessia sensorial e crítica pelas paisagens simbólicas da exclusão cigana em Portugal. Inspirada pela metáfora da interrupção, a obra tensiona o olhar normativo ao evocar a fricção entre celebração comunitária e violência estrutural. Através de imagens em preto e branco, vozes e dispositivos analógicos, constrói-se um espaço de confronto com aquilo que, frequentemente, permanece fora do enquadramento — tanto físico quanto simbólico.

O visitante é desafiado a tocar, caminhar e escolher: ver ou permanecer com areia nos olhos? Esta instalação inscreve-se no campo expandido das práticas de média-arte digital e justiça espacial, articulando uma estética da resistência — inspirada na low-resolution (Steyerl, 2009) e práticas de co-criação. A obra reivindica uma política da presença — incômoda, tátil, insubmissa — para ressignificar o modo como o corpo cigano é percebido, silenciado e (in)visibilizado.

Objetivo da intervenção/comunicação

Esta intervenção artística visa desestabilizar a perpetuação dos discursos dominantes sobre o povo cigano em Portugal, ao criar um espaço de escuta e presença que reintroduz a experiência da alteridade no centro da atenção estética e política. A obra busca revelar as camadas invisíveis da exclusão socioespacial e as violências simbólicas que operam cotidianamente por meio do silêncio institucional e do preconceito arraigado. Ao convocar o corpo do espectador a interagir sensorial e criticamente com o espaço, propõe-se uma comunicação informativa, mas também transformadora. A poética da interrupção busca reconfigurar a escuta como ato de resistência. A instalação se inscreve, assim, como gesto artístico e epistemológico, contribuindo para o debate contemporâneo sobre justiça espacial, arte socialmente engajada e visibilidade das comunidades marginalizadas.

Instruções de utilização

Para experienciar plenamente esta obra, o visitante é convidado a retirar os sapatos na entrada do espaço expositivo. Este gesto marca o início de um percurso sensorial. A travessia exige atenção aos materiais sob os pés, à textura da madeira e ao desconforto que ela provoca — metáfora encarnada da precariedade habitacional e da resistência. Recomenda-se observar a projeção frontal em silêncio, permitindo que as imagens ressoem com as memórias do corpo. Ao ouvir o toque do telefone fixo, o visitante poderá atender — ou não. A decisão faz parte da dramaturgia interativa da obra. Quem atende, ouve: falas estigmatizantes e estatísticas de exclusão. A experiência não se fecha em respostas, ela evoca a reflexão e abertura de caminhos em perguntas.

Tecnologias e técnicas utilizadas

Vídeo digital em preto e branco editado com Adobe Premiere, dispositivo sonoro analógico, sistema de projeção, instalação tátil-sensorial, fotografias impressas.

Diário Digital de Bordo

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Gabriella Fontes

Arquiteta e urbanista, formada em 2020 pela UNEF (Brasil), com mestrado em Reabilitação Urbana Integrada pela Universidade de Coimbra (2023). Desde 2024, é doutoranda em Média-Arte Digital na Universidade do Algarve, onde integra o Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC) e o grupo de estudos interseccionais e urbanos — RE|DE. Atua na interseção entre arte, urbanismo e justiça espacial, com foco em práticas audiovisuais colaborativas. Seu projeto de doutoramento investiga representações do povo cigano em Portugal, com ênfase na escuta crítica e na estética low-resolution. Gabriella nasceu no Brasil e vive atualmente em Coimbra, Portugal.