Vítor Gomes

Travessias

Conceito

“Travessias” é uma instalação interativa de cariz artivista que confronta o visitante com a realidade dramática dos milhares de pessoas forçadas a abandonar os seus países em busca de abrigo e de melhores condições de vida. O artefacto foca-se nas travessias marítimas, colocando em contraste a ideia comum do mar como espaço de introspeção e paz com o seu lado invisível, marcado por sofrimento e tragédia.

Calmo / meditativo

Inicialmente, a instalação apresenta-se como uma projeção calma e contemplativa: um mar azul com ondas suaves e um horizonte vasto, quase meditativo. Contudo, quando o visitante entra no espaço e é detetado pela webcam, dá-se uma transformação imediata e abrupta: o mar torna-se vermelho, e revoltado, o céu enche-se de nuvens pesadas cinzentas. É nesta altura que surgem cubos laranja a boiar, volumes que evocam coletes salva-vidas assinalando cada vida e os poucos pertences que a acompanham.

Ao mesmo tempo emergem vozes fragmentadas, distorcidas, que suplicam ajuda em múltiplas línguas. Mais à frente, rente ao chão, um ecrã inicia sinais “SOS” em código Morse vermelho e, entre interferências de sinal, surgem fragmentos de depoimentos reais, coordenadas GPS de naufrágios e estatísticas sobre desaparecidos, revelando o que habitualmente permanece fora de vista.

Tempestade / revolto

No espaço físico estão cinco cubos laranja em frente à projeção. Funcionam como extensão material dos cubos virtuais, ligando a parte digital à experiência física do visitante. No interior de cada cubo encontram-se objetos que remetem para estas travessias. Estes elementos materializam o rasto deixado por milhares de pessoas que enfrentam o desconhecido.

Mensagem

O visitante, ao ativar este ambiente, confronta-se com o seu próprio papel no testemunho desta realidade: o mar pacífico existe apenas enquanto o olhar não se compromete. “Travessias” interpela assim cada pessoa, colocando-a perante uma escolha ética inevitável: olhar ou não olhar, reconhecer ou negar aquilo que continua presente — mesmo quando preferimos fazer de conta que não existe.

Referências e influências

Entre as referências que moldam “Travessias” destaca-se Banksy, artista britânico anónimo cuja arte urbana usa ícones de leitura imediata para denunciar desigualdades e crises humanitárias. Junta-se o trabalho do conceituado artista-ativista chinês Ai Weiwei, sobretudo a instalação Safe Passage (2016), onde catorze mil coletes salva-vidas recolhidos em Lesbos cobriram o Konzerthaus de Berlim, convertendo um objeto de resgate num alerta coletivo. O artista Krzysztof Wodiczko, que em “Loro (Them)” (2019) projeta vozes de migrantes através de drones equipados com ecrãs LED, dando rosto anónimo a histórias de deslocação; e com a Random International, cujo Rain Room (2012) fez do próprio ambiente um sensor que responde à presença do visitante. A intensidade sensorial de The Raft (2004), de Bill Viola, convoca a vulnerabilidade e a solidariedade humanas perante forças inesperadas.

Objetivo de Intervenção / Comunicação

“Travessias” pretende sensibilizar o visitante para as realidades pouco visíveis das travessias marítimas, que envolvem pessoas forçadas a abandonar os seus países em busca de abrigo, segurança e dignidade. A instalação convida a uma reflexão individual, sem recorrer a imposições narrativas ou didáticas.

Ao transformar-se, por efeito da presença do público, de um mar calmo num mar agitado e alarmante, a obra expõe o contraste entre a perceção habitual do mar como espaço contemplativo e a sua faceta trágica como palco de viagens perigosas e vidas em risco.

Recorrendo a fragmentos visuais, sonoros e objetos simbólicos, obra procura despertar empatia e estimular uma experiência sensorial e emocional. “Travessias” desafia cada visitante a questionar o seu lugar enquanto observador e a confrontar- se com aquilo que realmente quer ver ou decide ignorar, lembrando que essa realidade poderia igualmente fazer parte da sua própria história.

Instruções de Utilização / Usufruto

“Travessias” não apresenta instruções formais de uso. A experiência é desenhada para ser explorada de forma intuitiva, livre e pessoal. O visitante é convidado a entrar no espaço, observar à distância, escutar o ambiente e deixar-se conduzir pela própria curiosidade.

Ao longe, depara-se com uma paisagem marítima tranquila — um mar calmo, aparentemente inofensivo. Não há indicações explícitas, nem chamadas de atenção. A instalação mantém-se serena, quase contemplativa. No entanto, à medida que o visitante se aproxima, de forma inconsciente, a sua presença é detetada, e esta aproximação dá início a uma transformação gradual: o mar altera-se, surgem novas camadas sonoras e visuais, revelando um problema mais profundo, invisível à primeira vista.

Também no espaço expositivo, cinco cubos laranja podem ser observados. Estão dispostos como vestígios discretos, contendo objetos simbólicos. Os seus conteúdos não estão totalmente expostos, convidando o visitante a aproximar-se, a espreitar, a descobrir com delicadeza. Não se trata de tocar ou manipular, mas sim de observar com atenção, respeitando o que ali está guardado.

A obra convida, assim, à pausa e à reflexão. Mais do que procurar um sentido imediato, pede-se ao visitante que esteja presente, que escute, que olhe, que repare no que muda com a sua presença — e, acima de tudo, que se permita questionar aquilo que habitualmente permanece fora de vista.

Diário Digital de Bordo

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Vítor Hugo Gomes

Natural de Gondomar, é licenciado em Design de Animação e Multimédia pelo Instituto Politécnico de Portalegre. Animador 2D desde 2011, participou em várias produções nacionais e internacionais, como Nutriventures, Pronto Era Assim, The Amazing World of Gumball, The Crunchers, entre outras. Atualmente, colabora com o estúdio Essence Cartoon e leciona Animação 2D no Instituto Politécnico de Portalegre.