Sandra Teixeira
Corpo de Resistência – territórios de conflito e identidade cultural
Conceito
Vivemos um tempo em que a violência armada se dissemina a uma escala sem precedentes: em 2024, morreram mais de 223.000 pessoas em conflitos armados, 1 em cada 67 habitantes do planeta foi forçado a deslocar-se devido à guerra, perseguição ou violência – um total de cerca de 122 milhões de deslocados. Atualmente, 4,6% da superfície do planeta está em situação de conflito, o que representa mais de seis milhões de quilómetros quadrados, com 61 conflitos armados ativos em 36 países. Estes números, para além da sua dimensão estatística, traduzem uma realidade de sofrimento, perda e resistência que raramente chega ao olhar público de forma humanizada.
“Corpo de Resistência – territórios de conflito e identidade cultural” nasce como uma resposta a este cenário, propondo-se como manifesto político e poético contra a desumanização. Através da recontextualização do arquivo fotográfico de Alfredo Cunha, fotojornalista durante 55 anos, a instalação posiciona o corpo como território onde se inscrevem o trauma, a memória e a resistência política, recusando a passividade e afirmando a identidade cultural. O projeto convida o espectador a abandonar a posição de mero observador, tornando-se participante ativo na reconstrução dos significados da violência e da identidade.
Objetivo de intervenção/comunicação
O principal objetivo desta instalação é desconstruir as narrativas mediáticas hegemónicas sobre a guerra, que frequentemente perpetuam a desumanização do “outro” e silenciam a complexidade dos conflitos. Pretende-se ativar politicamente o arquivo fotográfico, utilizando a videoarte e a palavra poética como ferramentas para reanimar e reinterpretar imagens que, de outro modo, poderiam permanecer silenciosas. O projecto procura criar uma experiência contemplativa que promova empatia disruptiva, desafiando o espectador a reconhecer a dimensão humana do trauma e da resistência. Ao propor uma contra-visualidade, a obra contribui para a construção de narrativas alternativas, capazes de preencher as lacunas deixadas pela cobertura mediática tradicional. Procura, em última análise, explorar o corpo como campo simbólico de resistência e identidade, ampliando a compreensão coletiva dos conflitos armados contemporâneos e da responsabilidade ética na sua representação.
Contra-narrativa Poética
O poema original, escrito e narrado na voz da artista, é o eixo central da experiência audiovisual. A palavra poética surge como contra-narrativa subjectiva, interrompendo o silêncio das imagens e humanizando a memória dos conflitos. A integração do poema reforça a crítica à desumanização mediática, activa o arquivo como memória viva e transforma a experiência expositiva num manifesto político e sensorial de resistência. A locução na voz da artista amplifica a autenticidade e a ligação entre criadora e obra, materializando a resistência cultural feminina em diálogo com as representações predominantemente masculinas do arquivo fotográfico.
Reflexões
Num contexto em que a violência política cresce e as zonas de conflito se expandem, a média-arte digital revela-se uma ferramenta transformadora para documentar, interpretar e resistir à violência, promovendo uma cultura visual mais crítica e inclusiva. “Corpo de Resistência” levanta questões éticas fundamentais sobre a representação da violência, a autenticidade das imagens e o papel do artista como artivista. A obra sublinha a necessidade de responsabilidade ética na criação e partilha de narrativas sobre conflitos armados, afirmando que o corpo humano, mesmo nos cenários mais desoladores, é o mais poderoso acto de resistência.
Diário de Bordo
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Sandra Teixeira
Nasceu no Porto em 1977. Mestre em Design e Produção Gráfica e licenciada em Design de Comunicação, dirige o Studio RARO – Sinergias Criativas e Culturais.
É curadora-chefe da LUMICROMA, em www.lumicroma.com
Desenvolve atividade em investigação, curadoria, design nas áreas culturais e património.


